“Qual é a melhor madeira para fazer um arco?” É a pergunta que mais ouço. A resposta honesta é que depende: da parte do arco em que a madeira vai trabalhar, do desenho que você quer fazer e da peça que você tem em mãos. Mesmo assim, depois de muitos arcos de sucesso e outros tantos arcos quebrados, dá para separar o que funciona do que só dá dor de cabeça.
Neste texto eu falo do bambu e do ipê, os materiais mais conhecidos. As outras madeiras, e tudo o que aprendi com elas, estão no meu livro Guia das melhores madeiras nacionais para fabricação de arcos, onde reuni mais de 50 madeiras brasileiras.
Resposta curta: o que eu usaria
- Backing (as costas do arco, que trabalham esticadas): bambu mossô.
- Belly (a barriga, que trabalha comprimida) e core (o núcleo): uma madeira densa e resistente à compressão, como o ipê.
- Arco de uma peça só (selfbow): depende muito da madeira e da peça. Prefira cerne, anéis de crescimento bem definidos e um desenho mais longo.
- Para quem está começando: madeiras fáceis de achar e de trabalhar, em desenhos longos, que não exigem demais da madeira.
Uma combinação clássica é bambu no backing e ipê no belly. Lá fora dizem que o ipê com o bambu é uma “combinação mortal”, e funciona mesmo. Mas as madeiras de que eu mais gosto, e que me deram os arcos de melhor desempenho, não são o ipê.
O que a madeira precisa fazer no arco
Quando você puxa a corda, o arco trabalha de dois jeitos ao mesmo tempo. O backing, voltado para o alvo, é esticado: sofre tração. O belly, voltado para você, é espremido: sofre compressão. Por isso, a madeira boa para um lado nem sempre é boa para o outro. Se quiser ver isso na prática, assista ao vídeo Entendendo backing e belly em arcos, no meu canal.
Boa parte das quebras vem de três problemas: fratura por compressão (o chrysal, quando a madeira se amassa), nó escondido na peça e grã-revessa, quando as fibras mudam de direção e as camadas se soltam. Por isso, escolher a peça é tão importante quanto escolher a espécie.
Também contam a densidade (mais densa resiste mais, mas pesa mais), a elasticidade (a rapidez com que a madeira volta à posição original) e o efeito memória (quando ela fica com a forma da corda). Uma madeira densa e pouco elástica, como o ipê, pede um arco mais longo. Uma mais elástica aceita arcos mais curtos. Para entender como cada desenho trabalha, veja também Longbow, recurvo ou híbrido: qual é a diferença entre os arcos?
Bambu: o melhor backing

Tecnicamente o bambu nem é madeira, é uma gramínea. Mas o uso dele na arqueria é importante demais para ficar de fora. O bambu mossô resiste muito à tração, e por isso é o material natural que mais desempenho agrega ao arco, além da madeira.
As fibras fortes ficam perto da casca, então muitas vezes é preciso fazer mais de uma laminação para tirar o máximo dele. E vale remover a parte interna: ela é peso inútil e cobra o preço em desempenho.
Pontos de atenção: o bambu cede bastante logo no início da tração, por isso deixo alguns centímetros de reflex na colagem. Ele ganha e perde umidade muito rápido, então sele logo. E não resiste tanto à compressão: quando uso no belly, sapeco a camada antes de colar.
Ipê: a madeira nacional mais famosa
É a madeira brasileira mais conhecida para arcos, aqui e no exterior. Tem alta densidade, é pesada, muito dura e resiste muito à compressão. No belly ou no core de um arco com backing de bambu ou de fibra de vidro, o cerne do ipê potencializa a energia do arco, resistindo à tração do backing e devolvendo energia com dureza e estabilidade.
Sozinho, o ipê tem elasticidade de baixa a moderada. Em selfbows de cerne, o arco precisa ser longo o bastante para não quebrar. E muita gente reclama de arcos de ipê que delaminam ou quebram do nada. Isso costuma acontecer por três motivos:
- Oleosidade. Atrapalha a colagem. Limpe a superfície com álcool isopropílico ou acetona pura antes de colar e use cola de boa qualidade.
- Nós internos. Às vezes só aparecem quando o arco trinca. Usar várias lâminas finas em vez de uma grossa ajuda a enxergar o defeito.
- Fratura por compressão. Muitas espécies são vendidas como ipê, com densidades diferentes. A regra é: quanto mais escura a peça e menos defeitos, melhor. Fuja de peças com alburno (brancal).

O ipê é a madeira nacional mais famosa, mas não é a que eu mais gosto nem a que dá o melhor desempenho. Minha melhor escolha para ele são os arcos longos, no belly ou no core, ou os longbows reflex-deflex. Nos recurvos agressivos com fibra de vidro, uma lâmina de bambu costuma render mais, porque o ipê é mais pesado.
E as madeiras de que eu mais gosto?
As madeiras de que eu mais gosto, as que me deram os arcos de melhor desempenho, não são o ipê. Elas ficaram de fora deste texto de propósito: estão no meu livro, junto com mais de 50 madeiras brasileiras, divididas em razoáveis, boas e excelentes.
Para cada madeira eu conto os nomes populares, onde ela é encontrada, as vantagens, os pontos de atenção e a melhor função no arco: backing, core ou belly. É o atalho para poupar peças, tempo e frustração.
Quer conferir? Veja o livro e como adquirir:
Boa jornada, e bons arcos!
Elison J. G. Lusvardi, bowyer da Indiana Bows


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